Conselheiro da ProEpi explica os fatores que tornam a atual emergência diferente de surtos anteriores e destaca como o Brasil pode se preparar
O recente avanço dos casos de ebola na África reacendeu o alerta das autoridades sanitárias internacionais. Embora o risco de introdução da doença no Brasil permaneça considerado baixo, especialistas destacam que o atual cenário reúne características que tornam a emergência mais complexa do que surtos registrados nas últimas décadas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) acompanha a evolução da doença na África Central, onde conflitos armados, deslocamentos populacionais e limitações na resposta dos sistemas de saúde dificultam o controle da transmissão. Paralelamente, o aumento da circulação internacional de pessoas exige que os países reforcem seus mecanismos de vigilância epidemiológica e preparação para possíveis casos importados.
Para Jonas Brant, conselheiro da Associação Brasileira de Profissionais de Epidemiologia de Campo (ProEpi) e professor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB), o comportamento do surto já demonstra sinais que justificam maior atenção da comunidade internacional.
“Esse surto já começa com um tamanho muito maior do que qualquer outro que enfrentamos em um período semelhante. Isso, por si só, já representa um grande sinal de alerta.”
Um cenário mais complexo que os anteriores
Segundo a OMS, a resposta ao ebola depende de ações rápidas de vigilância, identificação precoce dos casos, rastreamento de contatos e isolamento adequado dos pacientes. No entanto, essas estratégias tornam-se muito mais difíceis em regiões marcadas por instabilidade política e conflitos armados.
Brant explica que boa parte dos casos ocorre em áreas onde a população enfrenta dificuldades de acesso aos serviços de saúde e onde a violência compromete o trabalho das equipes de vigilância.
“É uma região bastante conflituosa. A ausência de confiança da população, somada à violência, torna muito complexo garantir serviços de saúde, rastreamento de contatos e isolamento dos casos.” resalta.
A própria OMS destaca que a insegurança e os deslocamentos populacionais figuram entre os principais obstáculos para interromper as cadeias de transmissão, reforçando que a confiança das comunidades é um dos pilares da resposta às emergências sanitárias.
Cooperação internacional também enfrenta desafios
Outro aspecto levantado pelo especialista diz respeito às mudanças recentes na cooperação internacional em saúde. Segundo Brant, a redução da atuação de importantes financiadores internacionais pode comprometer a articulação entre governos, organismos multilaterais e instituições responsáveis pela resposta aos surtos.
“Construir uma infraestrutura capaz de responder a uma emergência já é um processo complexo. Quando há redução da coordenação internacional, esse desafio se torna ainda maior.”
Especialistas em saúde global alertam que o fortalecimento das redes de cooperação continua sendo fundamental para garantir rapidez na mobilização de recursos, profissionais e equipamentos durante emergências epidemiológicas.
Grandes eventos aumentam a necessidade de vigilância
O cenário atual também coincide com um período de intensa mobilidade internacional. Eventos esportivos e culturais de grande porte ampliam a circulação de viajantes entre continentes e exigem atenção adicional das autoridades sanitárias. Para Brant, embora isso não signifique aumento expressivo do risco para o Brasil, reforça a necessidade de preparação.
“Grandes eventos internacionais aumentam a circulação de pessoas e podem facilitar a introdução do vírus em outros países caso existam falhas na vigilância.”
A OMS considera que o risco global permanece baixo, mas recomenda que todos os países mantenham capacidade para detectar rapidamente casos suspeitos, investigar contatos e adotar medidas de contenção quando necessário.
O risco para o Brasil continua baixo, mas preparação é essencial
Segundo Brant, não há motivo para alarmismo, mas também não há espaço para complacência.
“O risco do ebola no Brasil ainda é baixo, mas isso não significa que seja desprezível. Precisamos aproveitar esse momento para fortalecer nossa preparação.”
Entre as medidas consideradas prioritárias pelo especialista estão:
- Definição de hospitais de referência para atendimento de casos suspeitos;
- Protocolos para monitoramento de viajantes provenientes de áreas afetadas;
- Fortalecimento do rastreamento de casos e contatos;
- Treinamento contínuo de profissionais de saúde;
- Manutenção de estoques estratégicos de equipamentos de proteção individual (EPIs);
- Fortalecimento das estruturas de biossegurança.
“O preparo começa antes da emergência acontecer. É necessário desenvolver capacidade instalada para responder rapidamente caso o cenário epidemiológico mude”, afirma.
Emergências simultâneas exigem planejamento
Outro ponto destacado pelo especialista é a possibilidade de os sistemas de saúde enfrentarem diferentes crises ao mesmo tempo. Eventos climáticos extremos, como episódios intensos de El Niño, podem aumentar a ocorrência de desastres naturais, doenças transmitidas por vetores e outras emergências sanitárias, exigindo maior capacidade de resposta das equipes de saúde. Nesse contexto, Brant defende o fortalecimento da integração entre universidades, serviços de vigilância e redes assistenciais.
“Precisamos preparar pessoas, organizar fluxos e construir uma reserva estratégica de profissionais qualificados para responder rapidamente quando necessário.”
Vigilância epidemiológica continua sendo a melhor resposta
Embora o ebola continue representando baixo risco para a população brasileira, especialistas reforçam que investir em vigilância epidemiológica é a forma mais eficaz de reduzir impactos caso ocorram eventos importados. Experiências anteriores demonstram que sistemas preparados conseguem identificar precocemente casos suspeitos, interromper cadeias de transmissão e proteger profissionais de saúde e comunidades.
Para a ProEpi, fortalecer a epidemiologia de campo, investir na qualificação permanente dos profissionais e ampliar a cooperação entre instituições permanece sendo um dos caminhos mais importantes para enfrentar ameaças emergentes à saúde pública.
Os dados presentes nesta matéria foram obtidos à época de sua elaboração, portanto, algumas informações podem estar desatualizadas. Utilize canais oficiais para se manter atualizado.
Texto por Jonas Brant e Matheus Ponte

Jonas Brant
Médico veterinário, sanitarista professor de saúde coletiva na Universidade de Brasília. É conselheiro da ProEpi
Referências
AFRICA CENTRES FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (Africa CDC). Weekly Outbreak Brief. Addis Ababa: Africa CDC, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, edição vigente.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Ebola (Ebola Virus Disease). Atlanta: CDC, 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Ebola disease outbreak – Disease Outbreak News. Geneva: WHO, 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Ebola outbreak in the Democratic Republic of the Congo – Situation reports. Geneva: WHO, 2026.


