Presidente da ProEpi destaca diferenças entre as formas de transmissão da doença e reforça importância da vigilância epidemiológica diante do surto internacional
O surto de hantavírus associado ao navio de expedição MV Hondius, que mobilizou autoridades sanitárias em diversos países nas últimas semanas, trouxe novamente atenção para uma doença pouco conhecida pelo público, mas que pode apresentar elevada gravidade clínica.
Segundo informações divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o evento registrou 13 casos confirmados ou prováveis e três óbitos entre passageiros e tripulantes de diferentes nacionalidades (informações até o dia 15 de maio). O agente identificado foi o vírus Andes, uma variante rara do hantavírus encontrada principalmente na Argentina e no Chile e que, diferentemente das demais cepas conhecidas, possui potencial de transmissão entre pessoas.
Para Sarah Mendes, sanitarista e presidente da ProEpi, o episódio tem gerado dúvidas importantes sobre os riscos da doença e a possibilidade de disseminação para outros países, incluindo o Brasil.
“A primeira coisa que precisamos entender é que o hantavírus já existe há muito tempo e circula naturalmente em roedores silvestres. Não estamos falando dos ratos urbanos comuns, mas de espécies específicas que vivem em ambientes rurais e que carregam o vírus sem desenvolver a doença“, explica.
Como ocorre a transmissão
No Brasil, a principal forma de infecção continua sendo o contato indireto com secreções de roedores silvestres infectados. A transmissão acontece principalmente pela inalação de partículas presentes na urina, nas fezes ou na saliva desses animais, que podem contaminar o ambiente e permanecer suspensas no ar durante atividades como limpeza de galpões, depósitos, celeiros e construções fechadas.
“O mecanismo mais comum é a inalação dessas partículas contaminadas. Também pode ocorrer infecção por contato com mucosas, ingestão de água ou alimentos contaminados e, mais raramente, por mordeduras”, afirma Sarah.
Segundo o Ministério da Saúde, a síndrome cardiopulmonar por hantavírus é considerada uma doença de alta letalidade no Brasil, especialmente quando o diagnóstico ocorre tardiamente.
O que torna a cepa Andes diferente
A atenção internacional atual está concentrada na cepa Andes, responsável pelo surto investigado pela OMS. Enquanto a maioria dos hantavírus é transmitida exclusivamente a partir do contato com roedores infectados, a variante Andes é reconhecida como a única capaz de provocar transmissão entre seres humanos, geralmente após contato próximo e prolongado.
Essa característica explica a mobilização internacional em torno dos casos identificados no navio. Ainda assim, especialistas destacam que a transmissão interpessoal continua sendo considerada rara e que o risco de disseminação ampla permanece baixo. Tanto a OMS quanto o CDC afirmam que não existem evidências de risco pandêmico associado ao evento atual.
“No Brasil não existe registro dessa forma de transmissão relacionada à cepa Andes. Essa variante permanece concentrada principalmente na Argentina e no Chile”, ressalta Sarah.
Doença grave e sintomas que podem confundir
Outro desafio relacionado ao hantavírus é a dificuldade de reconhecimento precoce dos casos. Os primeiros sintomas costumam ser inespecíficos e semelhantes aos de diversas infecções virais comuns. Febre, dor no corpo, dor de cabeça, mal-estar, náuseas e vômitos frequentemente aparecem nos primeiros dias da doença, o que pode retardar a suspeita clínica. A evolução, entretanto, pode ser rápida.
Quando o vírus atinge o organismo, ele compromete as células que revestem os vasos sanguíneos, favorecendo o extravasamento de líquidos para os pulmões.
“De forma simples, é como se os vasos sanguíneos começassem a perder líquido. Esse líquido se acumula nos pulmões e dificulta a respiração, provocando os quadros graves da doença”, explica a especialista.
Dados do CDC indicam que a síndrome pulmonar por hantavírus pode apresentar taxas elevadas de mortalidade, exigindo frequentemente internação em unidades de terapia intensiva.
Diagnóstico precoce salva vidas
Atualmente não existe medicamento específico capaz de eliminar o vírus. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento de suporte continuam sendo os principais fatores associados à redução da mortalidade.
“O que faz diferença é reconhecer rapidamente os sintomas e iniciar o manejo adequado. Os pacientes mais graves precisam de suporte respiratório, ventilação mecânica e acompanhamento intensivo”, destaca Sarah.
O período de incubação pode variar entre uma e cinco semanas após a exposição, tornando essencial que pacientes informem aos profissionais de saúde possíveis contatos com ambientes rurais ou locais frequentados por roedores silvestres.
Como prevenir a doença
As recomendações para prevenção permanecem as mesmas adotadas historicamente para hantavírus.
Entre as principais medidas estão:
- Utilizar equipamentos de proteção individual durante a limpeza de galpões, depósitos e construções fechadas;
- Evitar varrer ambientes secos que possam conter poeira contaminada;
- Umedecer previamente superfícies e utilizar soluções desinfetantes adequadas;
- Armazenar alimentos corretamente;
- Controlar a presença de roedores em áreas residenciais e de trabalho;
- Procurar assistência médica diante de sintomas compatíveis após exposição a ambientes de risco.
Segundo Sarah, a informação qualificada continua sendo a principal ferramenta para evitar desinformação e reduzir riscos.
“Não existe motivo para pânico. O mais importante é que as pessoas conheçam a doença, saibam como ela é transmitida e procurem atendimento rapidamente caso tenham tido exposição e apresentem sintomas.”
Vigilância e cooperação internacional seguem essenciais
A resposta ao surto internacional tem envolvido autoridades sanitárias de dezenas de países, além da OMS, do Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) e do CDC norte-americano.
Especialistas avaliam que o episódio reforça a importância da vigilância epidemiológica, da cooperação internacional e da capacidade de resposta rápida diante de eventos de saúde pública que ultrapassam fronteiras.
Para a ProEpi, o fortalecimento das redes de vigilância e a qualificação contínua dos profissionais permanecem fundamentais para que os sistemas de saúde estejam preparados para identificar precocemente ameaças emergentes e proteger a população.
Os dados presentes nesta matéria foram obtidos na época de sua elaboração portanto, as informações podem estar desatualizadas. Utilize canais oficiais para se manter atualizado.
Texto por Sarah Mendes e Matheus Ponte

Sarah Mendes D’Angelo
Enfermeira epidemiologista, mestre em saúde pública, especialista em vigilância em saúde e gestão de sistemas de saúde. Gerente de projetos para a Saúde Pública. É presidente da ProEpi
Referências
Andes Virus Outbreak on a Cruise Ship: Current Situation | Hantavirus | CDC. U.S. Centers For Disease Control and Prevention. Acesse em: https://www.cdc.gov/hantavirus/faq/index.html
Andes hantavirus outbreak in cruise ship. European Centre for Disease Prevention and Control. Acesse em: https://www.ecdc.europa.eu/en/infectious-disease-topics/hantavirus-infection/surveillance-and-updates/andes-hantavirus-outbreak
Andes hantavirus outbreak in cruise ship. European Centre for Disease Prevention and Control. Acesse em: https://www.ecdc.europa.eu/en/infectious-disease-topics/hantavirus-infection/surveillance-and-updates/andes-hantavirus-outbreak
Andes Virus Outbreak on a Cruise Ship: Frequently Asked Questions. U.S. Centers For Disease Control and Prevention. Acesse em: https://www.cdc.gov/hantavirus/faq/index.html
Hantavirus cluster linked to cruise ship travel, Multi-country. World Health Organization. Acesse em: https://www.who.int/emergencies/disease-outbreak-news/item/2026-DON599
Hantavirus outbreak linked to cruise ship travel, Multi-locations. World Health Organization. Acesse em: https://www.who.int/emergencies/disease-outbreak-news/item/2026-DON604


