Equipes editoriais dos países africanos de língua oficial portuguesa avaliam a plataforma na prática e propõem melhorias para ela atender melhor a quem produz os boletins
Nos dias 26 e 27 de outubro de 2026, a ProEpi e a CDC Foundation realizam, em Cabo Verde, a Oficina de Validação Participativa do Centro de Recursos Técnicos (Technical Resource Hub – TRH). A plataforma reúne orientações e materiais para apoiar a produção dos Boletins de Saúde Pública (BSP) nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
A oficina parte de uma pergunta central: o TRH, da forma como está estruturado hoje, responde às necessidades reais de quem produz Boletins de Saúde Pública nos PALOP? Para responder, as equipes editoriais dos boletins nacionais participam como co-avaliadoras e co-construtoras da plataforma, e não apenas como usuárias. Nesse encontro, estiveram presentes equipes editoriais de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Guiné-Bissau.
Durante a oficina, os participantes têm a oportunidade de avaliar o conteúdo, a aplicabilidade, a usabilidade, a linguagem e a adequação dos recursos disponíveis no TRH, além de realizar atividades práticas de busca e utilização da plataforma. A partir dessa experiência, serão elaboradas recomendações de melhoria concretas, priorizadas e alinhadas às necessidades identificadas, promovendo também o intercâmbio de experiências, a aprendizagem mútua e a colaboração entre os países participantes.
A metodologia da oficina foi desenvolvida conjuntamente pela ProEpi e pela CDC Foundation, com foco em metodologias ativas que colocam os participantes no centro do processo de aprendizagem, favorecendo a troca de conhecimentos e experiências. Ao final, as atividades realizadas e as observações das facilitadoras serão sistematizadas em um relatório que reunirá os pontos fortes do TRH, as dificuldades identificadas e recomendações para o aprimoramento da plataforma.
A iniciativa também busca apoiar cada país na identificação de prioridades para fortalecer a produção de seus Boletins Nacionais de Saúde Pública, reconhecendo as particularidades de cada contexto e a importância de soluções que respondam às diferentes realidades e necessidades.
Abertura
A mesa de abertura contou com a participação da Presidente da ProEpi, Dra. Sarah Mendes, da Presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública, Dra. Sandra Brito e a Consultora Técnica Sênior do CDC Foundation, Dra. Kimberly Koporc.
Ao abrir os trabalhos, Sarah Mendes, destacou que a ProEpi desenvolve o apoio aos BSP dos PALOP desde 2022, de forma sustentável. “Desde 2022, a ProEpi vem trabalhando de forma mais próxima com a rede de países africanos de língua portuguesa para fortalecer os Boletins de Saúde Pública, reconhecendo seu papel estratégico na vigilância epidemiológica, na disseminação do conhecimento e na tomada de decisões em saúde. Ao longo dessa trajetória, tivemos a oportunidade de contribuir para a implementação dos Boletins de Saúde Pública de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, além de apoiar, em 2024, a publicação do primeiro boletim da Guiné-Bissau”, afirmou.
Para Sandra Brito, a institucionalização do BSP de Cabo Verde deve-se à dedicação dos profissionais envolvidos neste processo, além do apoio da ProEpi. Destacou que divulgar informação científica de importância nacional e internacional, enquadrada na abordagem Uma Só Saúde, para reforçar o Sistema Nacional de Saúde e subsidiar a tomada de decisão e a formulação de políticas de saúde pública, é uma missão fundamental do BSP de Cabo Verde. Pontuou ainda que as edições mais recentes passaram a divulgar investigações de campo, como a esquistossomose urinária, uma doença não notificada no país; um surto de intoxicação alimentar num evento de massa; um suposto surto de shigelose na ilha do Sal; e a promoção da abordagem multissetorial. Isto dá visibilidade ao trabalho no terreno e apoia decisões baseadas em evidências.
Sydney (CDC Foundation) destacou o potencial da colaboração internacional para superar fronteiras e promover o intercâmbio de experiências entre países. A experiência de Cabo Verde foi apresentada durante a falas dos participantes e o Boletim de Saúde Pública representa uma referência inspiradora para o fortalecimento de iniciativas colaborativas: “A colaboração tem um grande poder para além das fronteiras, e utilizar Cabo Verde como modelo é inspirador, tendo em vista que foi um árduo trabalho de implementação e engajamento das equipes.”
Kimberly (CDC Foundation), por sua vez, ressaltou a complexidade dos desafios identificados pelos participantes e a importância de manter o trabalho coletivo como estratégia para enfrentá-los. “Trabalhamos neste projeto há nove anos, e muitos desses desafios ainda não eram conhecidos por todos. Temos investido muito na colaboração, e precisamos continuar nesse exercício de construção utilizando plataformas como, por exemplo, a comunidade de práticas para troca de experiências!”, enfatizou.
Kimberly também chamou a atenção para a necessidade de fortalecer a divulgação interna do boletim, ampliando o conhecimento sobre sua finalidade, seu papel e as responsabilidades dos profissionais envolvidos em sua produção e disseminação. Segundo ela: “antes de ampliar o alcance da publicação externamente, é fundamental promover sua compreensão e valorização dentro das próprias instituições, pois nem todos conhecem o boletim ou compreendem plenamente o seu papel”, acrescentou.
Do diagnóstico à prática
O primeiro dia começou pelos desafios que os países enfrentam para manter seus boletins. Os participantes falaram com orgulho dos seus territórios e reconheceram como é difícil sustentar uma iniciativa que nasceu com financiamento externo.
Nos trabalhos em grupo, os problemas foram organizados em dimensões técnicas, institucionais, operacionais e informacionais. Alguns temas apareceram em vários países:
- Financiamento e planejamento: há compromisso institucional com os boletins, mas os recursos nem sempre entram no planejamento anual. Garantir financiamento interno foi apontado como condição para a sustentabilidade.
- Governança e definição de papéis: em vários contextos, diferentes departamentos atuam sobre os mesmos dados e não está claro quem é responsável pelo boletim. Os grupos defenderam aproximar as áreas técnicas e trabalhar com equipes multiprofissionais.
- Revisão e qualidade: o número de revisores é limitado e as respostas muitas vezes atrasam. Entre as propostas estão certificados e agradecimentos aos revisores, registro de não conformidades como indicador de qualidade e formação em serviço das equipes técnicas.
- Divulgação e alcance: as chamadas para submissão circulam pouco e a disseminação chega a menos pessoas do que poderia. O site institucional não basta, e é preciso explorar outros canais em parceria com as equipes de comunicação.
A divulgação apareceu como tema transversal e será o assunto do próximo encontro da Comunidade de Prática dos boletins.
Os participantes tiveram a oportunidade de navegar no TRH em busca de orientações para tarefas concretas, como publicar um boletim e fazer advocacy e divulgação. Ao mesmo tempo em que avaliavam a plataforma, já levantaram sugestões de melhoria, como mais consistência entre as traduções e os documentos complementares.



Sobre o projeto
A oficina integra um projeto executado pela ProEpi, com parceria técnica da CDC Foundation, em andamento desde março de 2026 e com conclusão prevista para dezembro. O objetivo é fortalecer a capacidade das equipes editoriais dos Boletins de Saúde Pública nos países africanos de língua portuguesa, com foco na qualidade editorial e na sustentabilidade das publicações. Antes do encontro em Cabo Verde, os boletins foram avaliados com um instrumento padronizado de qualidade e as equipes de cada país participaram de consultas online com a ProEpi. Após a oficina, o processo será documentado em um estudo de caso, e as principais conclusões serão incorporadas ao TRH, servindo de referência para outras iniciativas de fortalecimento dos boletins.


