Terremotos na Venezuela e na Colômbia evidenciam desafios da saúde pública em emergências humanitárias

Em um intervalo de menos de dois meses, dois grandes desastres sísmicos colocaram novamente em evidência os desafios da preparação e da resposta a emergências nas Américas.

Em 24 de junho de 2026, dois terremotos consecutivos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o centro-norte da Venezuela, afetando pelo menos sete estados e provocando danos significativos à infraestrutura, aos serviços essenciais e à rede de saúde. La Guaira esteve entre as áreas mais severamente afetadas.

Poucas semanas depois, em 10 de agosto, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia. Com epicentro na região de Chocó, o tremor afetou cidades como Cali, Pereira, Quibdó e Manizales e se tornou o terremoto mais forte registrado no país neste século. Nos dias seguintes, o número de vítimas continuou aumentando, enquanto milhares de pessoas ficaram feridas ou desalojadas e equipes de emergência trabalhavam em meio a réplicas e danos à infraestrutura.

Embora apresentem contextos e impactos distintos, as duas emergências reforçam uma mesma questão: quando um desastre compromete simultaneamente comunidades, infraestrutura e serviços essenciais, seus efeitos rapidamente se transformam também em um desafio de saúde pública.

Quando um desastre natural se torna uma emergência de saúde pública

As primeiras horas após um terremoto são marcadas pela busca e resgate de vítimas, pelo atendimento aos feridos e pela avaliação dos danos. Mas os impactos sobre a saúde podem persistir por semanas ou meses.

Hospitais e unidades de saúde podem sofrer danos justamente quando a demanda por atendimento aumenta de forma abrupta. Profissionais de saúde também podem ser diretamente afetados, enquanto interrupções no fornecimento de energia, água, transporte e telecomunicações dificultam a continuidade dos serviços.

Na Venezuela, avaliações realizadas após os terremotos identificaram danos em dezenas de estabelecimentos de saúde. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), 38 unidades apresentaram danos nos três estados mais afetados, e limitações operacionais continuaram pressionando a capacidade hospitalar, especialmente em La Guaira.

Na Colômbia, o terremoto também atingiu hospitais e outras estruturas essenciais em diferentes localidades do oeste do país. A emergência mobilizou equipes de resgate e levou à declaração de emergência nacional diante da extensão dos danos e do número crescente de vítimas.

Esses cenários demonstram que a capacidade de resposta de um sistema de saúde depende não apenas da existência de hospitais, mas também de sua resiliência para continuar funcionando em condições extremas.

Os riscos sanitários continuam depois do tremor

O fim dos tremores mais intensos não significa o fim da emergência.

Danos aos sistemas de abastecimento de água e saneamento, interrupções de serviços básicos, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e concentração de pessoas em abrigos temporários podem criar condições para o surgimento de novos problemas sanitários.

Entre os riscos que precisam ser monitorados estão doenças respiratórias e diarreicas, doenças imunopreveníveis e enfermidades transmitidas por vetores. Também é necessário garantir a continuidade do atendimento de pessoas que dependem regularmente dos serviços de saúde, como pacientes com doenças crônicas, gestantes, crianças e idosos.

Por isso, uma resposta efetiva exige acompanhar não apenas os efeitos imediatos do desastre, mas também as mudanças no perfil epidemiológico das populações afetadas.

Vigilância epidemiológica: informação para agir rapidamente

É nesse contexto que a vigilância epidemiológica se torna uma das ferramentas mais importantes da resposta às emergências.

O monitoramento de síndromes respiratórias, doenças diarreicas agudas, febres exantemáticas e outros agravos permite identificar alterações inesperadas no padrão de ocorrência de doenças e detectar possíveis surtos antes que eles assumam maiores proporções.

Nos abrigos e assentamentos temporários, essa capacidade é especialmente importante. A concentração populacional, associada a condições eventualmente inadequadas de água, saneamento e higiene, pode ampliar determinados riscos.

Após os terremotos na Venezuela, a OPAS apoiou ações de vigilância e resposta sanitária, além da recuperação da capacidade dos serviços de saúde. Na Colômbia, o acompanhamento das condições sanitárias das populações atingidas também passa a ser fundamental à medida que a resposta deixa a fase inicial de busca e salvamento e avança para a assistência e recuperação.

A epidemiologia, portanto, transforma dados produzidos durante uma situação de grande incerteza em informação capaz de orientar decisões.

Saúde mental também faz parte da resposta

Os efeitos de um terremoto não são apenas físicos.

Perder familiares, moradias e meios de subsistência, permanecer deslocado ou vivenciar sucessivas réplicas pode provocar sofrimento emocional significativo. Equipes de resgate e profissionais de saúde também estão expostos a situações de elevado estresse.

Na Venezuela, a saúde mental e o apoio psicossocial foram identificados pela OPAS entre as necessidades prioritárias da resposta, inclusive porque serviços especializados sofreram danos e redução de capacidade.

O mesmo cuidado precisa integrar a resposta a outras emergências, como a vivenciada atualmente pela Colômbia.

Isso significa reconhecer que saúde mental e apoio psicossocial não são elementos secundários da assistência humanitária, mas componentes fundamentais da recuperação das comunidades.

Dois desastres, uma discussão regional sobre preparação

A ocorrência de grandes terremotos na Venezuela e na Colômbia em um período tão curto também chama atenção para uma questão mais ampla: a necessidade de fortalecer continuamente a preparação para emergências na região das Américas.

A Colômbia possui intensa atividade sísmica. Segundo o Serviço Geológico Colombiano, o país registra milhares de eventos sísmicos todos os meses, embora a maioria não seja percebida pela população. A Venezuela também está inserida em uma região tectonicamente ativa.

Não é possível determinar com precisão quando ocorrerá o próximo grande terremoto. É possível, porém, reduzir suas consequências.

Isso passa por infraestrutura resiliente, planos de contingência, sistemas de alerta e comunicação, estoques estratégicos, equipes capacitadas, redes de vigilância preparadas para operar em situações adversas e mecanismos claros de coordenação entre diferentes setores.

Os episódios recentes também evidenciam a importância da cooperação entre países, organismos internacionais e instituições humanitárias, especialmente quando a dimensão de uma emergência supera a capacidade local de resposta.

O papel da epidemiologia em contextos de crise

Os terremotos na Venezuela e na Colômbia mostram que a epidemiologia vai muito além do acompanhamento de doenças em períodos de normalidade.

Em uma emergência, profissionais de epidemiologia e saúde pública ajudam a responder perguntas que podem definir os próximos passos da resposta:

Quais populações estão mais vulneráveis? Quais agravos estão aumentando? Onde estão surgindo novos riscos? Quais serviços foram interrompidos? Para onde devem ser direcionados recursos e equipes?

Responder rapidamente a essas perguntas permite priorizar ações, identificar surtos, orientar intervenções e proteger populações vulneráveis.

Por isso, fortalecer a vigilância epidemiológica, ampliar a preparação dos profissionais, desenvolver sistemas de informação capazes de funcionar em situações críticas e integrar saúde pública à gestão de riscos e desastres são investimentos fundamentais para aumentar a resiliência dos países.

Os desastres naturais podem acontecer em questão de segundos. A capacidade de reduzir seus impactos sobre a saúde, porém, é construída muito antes da emergência.

Fontes

  • Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Situation Reports – Earthquakes in Venezuela 2026 (M7.2 and M7.5).
  • Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Public Health Situation Analysis of Venezuela. Julho de 2026.
  • Servicio Geológico Colombiano (SGC). Informações e monitoramento da atividade sísmica.
  • Reuters. Cobertura do terremoto de magnitude 7,4 ocorrido na Colômbia em agosto de 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza cookie de captura.