A Copa do Mundo de 2026 já entrou para a história antes mesmo da bola rolar. Pela primeira vez, o torneio reúne 48 seleções, um aumento de 50% em relação às edições anteriores e também é pioneira em ser sediada em 3 países: Canadá, Estados Unidos e México. Serão milhões de torcedores circulando entre cidades, aeroportos, hotéis, transportes públicos e estádios ao longo de pouco mais de um mês.
Para o futebol, essa expansão representa uma celebração da diversidade e da integração entre países. Para a saúde pública, representa um dos maiores desafios de vigilância epidemiológica já enfrentados em um evento esportivo.
Grandes eventos internacionais modificam temporariamente a dinâmica populacional de um território. Pessoas vindas de dezenas de países compartilham espaços, deslocam-se rapidamente entre diferentes regiões e aumentam a possibilidade de introdução e disseminação de doenças transmissíveis. Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica os eventos de massa como situações que exigem planejamento específico em vigilância epidemiológica, comunicação de riscos e resposta rápida.
Essa preparação se torna ainda mais importante diante do cenário epidemiológico global.
Qual o cenário epidemiológico atual globalmente?
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), somente entre janeiro e maio de 2026, as Américas registraram 21.431 casos confirmados de sarampo e 31 mortes, um aumento de 234% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Aproximadamente 85% dos casos ocorreram em pessoas não vacinadas ou com situação vacinal desconhecida, evidenciando como a queda das coberturas vacinais favorece o retorno de doenças previamente controladas.
Ao mesmo tempo, países africanos seguem fortalecendo seus sistemas de vigilância para responder a surtos de doenças como Ebola e Marburg, enquanto a mpox continua demandando monitoramento internacional. Em um cenário de intensa mobilidade global, doenças infecciosas deixam de ser desafios exclusivamente locais para se tornarem preocupações compartilhadas entre os países.
Nesse contexto, cada voo internacional, cada aeroporto, cada fan fest e cada estádio passam a integrar uma mesma rede de vigilância em saúde.
Quando a torcida viaja, os vírus também podem viajar
A história mostra que o aumento da mobilidade humana influencia diretamente a dinâmica de transmissão de doenças infecciosas.
Embora eventos esportivos raramente sejam responsáveis, por si só, por grandes epidemias, eles ampliam oportunidades de exposição e exigem que os serviços de saúde estejam preparados para detectar precocemente qualquer evento de interesse em saúde pública.
Por isso, a OMS recomenda que países anfitriões fortaleçam suas capacidades antes mesmo da chegada das delegações e dos torcedores. Entre as principais ações estão:
- vigilância epidemiológica em tempo real;
- monitoramento sindrômico;
- comunicação rápida de riscos;
- investigação de casos suspeitos;
- rastreamento de contatos;
- integração entre laboratórios e serviços de saúde;
- participação ativa da população.
Mais do que responder a emergências, essas medidas deixam um legado permanente para os sistemas nacionais de saúde.
O que é rastreamento de contatos?
Entre todas essas estratégias, uma costuma acontecer longe dos holofotes, mas tem papel decisivo para interromper surtos: o rastreamento de contatos.
A metodologia consiste em identificar pessoas que tiveram contato com um caso suspeito ou confirmado de uma doença transmissível, avaliar seu nível de exposição, orientar medidas de prevenção, realizar acompanhamento quando necessário e interromper cadeias de transmissão antes que novos casos ocorram.
Embora tenha se tornado amplamente conhecida durante a pandemia de COVID-19, essa prática é utilizada há décadas no controle de doenças como tuberculose, meningite, sarampo, Ebola e Mpox.
Em 2024, a OMS publicou novas diretrizes reforçando que o rastreamento de contatos continua sendo uma das estratégias mais custo-efetivas para reduzir a transmissão de doenças infecciosas, principalmente quando associado à vigilância epidemiológica, diagnóstico oportuno e comunicação com a população.
Em outras palavras: quanto mais cedo um contato é identificado, maiores são as chances de evitar novos casos.
O desafio e as oportunidades dos eventos de grande porte
Quando se fala no legado de uma Copa, normalmente lembramos de estádios, mobilidade urbana ou turismo. Mas existe outro legado que permanece por muitos anos após o apito final: o fortalecimento da capacidade dos sistemas de saúde para responder a emergências.
A própria OMS considera que grandes eventos são oportunidades para modernizar processos de vigilância epidemiológica, incorporar novas tecnologias, integrar instituições e capacitar profissionais.
Foi justamente nesse contexto que o Brasil desenvolveu uma das iniciativas mais inovadoras de vigilância participativa do país.
Um aplicativo que transforma cidadãos em aliados da vigilância
Durante a preparação para a Copa do Mundo FIFA 2014, o Guardiões da Saúde, foi utilizado. Criado em 2007 pelo Ministério da Saúde, começou como uma ferramenta de vigilância participativa para monitorar eventos de grande porte no Brasil.
Por meio do aplicativo, cidadãos podiam registrar voluntariamente informações sobre seu estado de saúde, contribuindo para a identificação precoce de possíveis eventos de interesse em saúde pública. A iniciativa representou um avanço importante na chamada vigilância participativa, aproximando tecnologia, epidemiologia de campo e participação social.
Seu uso foi posteriormente ampliado para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, consolidando um importante legado brasileiro em inovação para vigilância em saúde.
Capacitação: um investimento para as próximas emergências
Ferramentas são importantes, mas elas só produzem impacto quando existem profissionais capacitados para utilizá-las. Pensando nisso, a ProEpi disponibiliza gratuitamente o Curso de Rastreamento de Contatos, destinado a estudantes, profissionais e gestores da saúde.
Com carga horária de 10 horas e dividido em seis módulos, o curso apresenta conceitos, métodos e ferramentas para investigação e rastreamento de contatos, incluindo tecnologias amplamente utilizadas em emergências de saúde pública, como o Go.Data.
Mais do que responder às emergências atuais, o fortalecimento dessas capacidades contribui para a preparação dos sistemas de saúde para os desafios do futuro. No futebol, as grandes equipes sabem que a vitória começa muito antes da partida. Na saúde pública, a lógica é semelhante.
Detectar precocemente riscos, monitorar eventos, investigar casos e interromper cadeias de transmissão são ações que acontecem longe dos holofotes, mas que fazem toda a diferença para proteger populações.
Enquanto a torcida acompanha o jogo, profissionais da vigilância em saúde seguem atentos ao que acontece fora de campo.
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Texto por Matheus Ponte, com edição e revisão de Gilton Almada
Referências
Organização Mundial da Saúde (WHO). Public Health for Mass Gatherings: Key Considerations. Acesse em: https://www.who.int/publications/i/item/public-health-for-mass-gatherings-key-considerations
Organização Mundial da Saúde (WHO). WHO Guideline on Contact Tracing (2024). Acesse em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240102965
Organização Mundial da Saúde (WHO). Strengthening Public Health Through Mass Gatherings. Acesse em: https://www.who.int/publications/i/item/strengthening-public-health-making-the-case-for-mass-gatherings
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Situation Report 4: Measles in the Americas Region (4 jun. 2026). Acesse em: https://www.paho.org/en/documents/situation-report-4-measles-americas-region-4-june-2026
ProEpi. Guardiões da Saúde. Acesse em: https://proepi.org.br/guardioes-da-saude/
ProEpi. Curso Rastreamento de Contatos. Acesse em: https://proepi.org.br/curso-rastreamento-de-contatos/


