Evento internacional reuniu especialistas para apresentar resultados inovadores do projeto Guardiões da Saúde – Líderes Comunitários e reforçar o papel da vigilância comunitária na detecção precoce de eventos de saúde.
A implementação de estratégias inovadoras para fortalecer a vigilância em saúde esteve no centro do evento “Implementando a Vigilância de Eventos Baseada na Comunidade no Brasil e em Cabo Verde”, realizado em Brasília-DF no dia 11 de março de 2026. Reunindo especialistas do Brasil, Cabo Verde e Reino Unido, o encontro marcou a apresentação dos resultados finais do projeto Guardiões da Saúde – Líderes Comunitários e consolidou evidências sobre o potencial da vigilância comunitária como estratégia complementar para a detecção precoce e resposta a eventos em saúde pública.
O evento reuniu cerca de 62 participantes presenciais e mobilizou ainda 232 inscritos no formato remoto, outros 141 acompanharam a programação ao vivo. Também contou com representantes de 12 países, entre eles Brasil, Cabo Verde, Reino Unido, Nigéria, Canadá, Alemanha e Angola e reuniu profissionais de diferentes áreas da saúde, pesquisadores, epidemiologistas de campo, residentes, organismos internacionais e representantes dos territórios envolvidos na implementação do projeto. Além da apresentação dos resultados do projeto, o encontro funcionou como espaço de troca sobre aprendizados, desafios e caminhos para ampliar esse modelo em diferentes contextos.
Com programação ao longo de todo o dia, o evento foi estruturado em torno de sete apresentações técnicas, debates e sessão de perguntas e respostas, abordando desde resultados da pesquisa piloto até perspectivas para institucionalização da Vigilância de Eventos Baseada na Comunidade (VEBC) no Brasil e em Cabo Verde. Também foram discutidas experiências regionais nas Américas, desenvolvimento de tecnologias de suporte e estratégias para manutenção e sustentabilidade da iniciativa.









A pesquisa parte da constatação de que os sistemas tradicionais de vigilância, baseados principalmente em indicadores e notificações formais, enfrentam limitações importantes, como subnotificação, atraso na detecção e dificuldade de captar sinais informais nos territórios.
Como resposta, o projeto piloto estruturou um modelo complementar baseado na atuação de líderes comunitários como sentinelas, apoiado por ferramentas digitais como o aplicativo Guardiões da Saúde (GS) e a plataforma ePHEM, adaptada especialmente para as necessidades do projeto, com o objetivo de ampliar a detecção precoce e fortalecer a resposta a eventos de interesse em saúde pública.
Na abertura do evento, a presidente da ProEpi, Sara Mendes D’Angelo, destacou o caráter inovador e desafiador da iniciativa. “Este é um marco para a saúde pública, mas não seria possível sem a parceria do Instituto Nacional de Saúde Pública de Cabo Verde”, afirmou.
Ao comentar o processo de implementação, ela ressaltou os riscos envolvidos em uma proposta que rompe com modelos tradicionais.
“Adentrar comunidades, treinar líderes e mexer com os processos de trabalho de profissionais de saúde é extremamente ousado — e tinha riscos, inclusive de não dar certo, mas não foi o que aconteceu”, disse, ao enfatizar os resultados alcançados.
A discussão sobre os limites e possibilidades da vigilância foi aprofundada pelo professor Jonas Brant, coordenador da Sala de Situação de Saúde da UnB, parceira do projeto. Ele chamou atenção para a necessidade de integração entre diferentes estratégias. Para o professor, a vigilância de eventos baseada na comunidade (VEBC) não substitui os sistemas existentes, mas se soma a eles como parte de um modelo mais abrangente. Ao mesmo tempo, destacou a importância da articulação institucional.

“Não faz sentido pensar a vigilância se não tiver essa parceria com o Ministério da Saúde”, afirmou. Segundo Brant, a valorização dos profissionais da área ainda é um desafio. “A gente carece de uma agenda positiva para que o profissional de vigilância seja reconhecido como estratégico no sistema de saúde.”
A dimensão internacional do projeto foi apresentada por William Nicholas, parceiro e representante do Reino Unido, que contextualizou a atuação da UK Public Health Rapid Support Team (UK-PHRST). Criada após a epidemia de Ebola na África Ocidental, a iniciativa atua em três frentes principais: resposta rápida a surtos, fortalecimento de capacidades locais e produção de evidências científicas.

“Este é um projeto de pesquisa realmente importante… que reúne uma colaboração única e inovadora entre a América do Sul, a África e o Reino Unido.”, afirmou.
Segundo ele, a cooperação com países de média e baixa renda permite não apenas responder a emergências, mas também construir soluções sustentáveis baseadas em evidências .
A experiência de Cabo Verde evidenciou como a estratégia pode ser adaptada a diferentes contextos. A presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública de Cabo Verde (INSP), também parceiro do projeto, Maria da Luz Lima, destacou que, mesmo em escala piloto, o projeto foi capaz de gerar impactos relevantes. “Para Cabo Verde, esta iniciativa representou uma oportunidade estratégica para reforçar a vigilância epidemiológica”, afirmou.

Segundo ela, a implementação contribuiu para fortalecer mecanismos de alerta precoce e aproximar os serviços de saúde das comunidades.
“Criar uma rede de vigilância muito mais sensível, participativa, resiliente e inovadora”, disse, ao resumir os avanços observados .
No contexto brasileiro, a representante do Centro Nacional de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (CIEVS Nacional), Priscilleyne Reis, reforçou a necessidade de inovação diante das transformações no perfil epidemiológico e nas dinâmicas sociais. “Os modelos tradicionais não respondem mais aos desafios atuais”, afirmou.

Para ela, iniciativas como a VEBC representam uma oportunidade de repensar práticas e incorporar novas abordagens à vigilância em saúde.
“É sempre bom receber esse tipo de provocação acadêmica para investir em estratégias que realmente respondam às necessidades do país”, destacou.
A aplicação prática do modelo foi detalhada por Fabiano Marques, coordenador do CIEVS, da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), que apresentou os resultados da experiência piloto em três municípios goianos com diferentes características: Cavalcante, Pirenópolis e Niquelândia.
“A experiência piloto demonstrou viabilidade, operacionalidade, engajamento comunitário e potencial de institucionalização”, afirmou .

A qualidade geral dos registros foi considerada muito boa, com 89% dos dados no Brasil e Cabo Verde preenchidos corretamente. A taxa de transformação de sinais em eventos confirmados foi de 55% no Brasil e 9% em Cabo Verde, indicando áreas de foco distintas para a vigilância. O tempo médio entre perceber e registrar um evento foi de 8 dias em Cabo Verde e 9 dias no Brasil, próximo ao ideal de 7 dias. A participação das lideranças e a adesão das equipes de saúde foram efetivas. O aplicativo foi considerado simples e funcional, com 76% das melhorias solicitadas implementadas.
Os dados apresentados reforçam a capacidade dos líderes comunitários de identificar situações relevantes e contribuir para o sistema de vigilância. A análise dos sinais apontou que a maioria estava relacionada a pessoas com sintomas semelhantes, seguida por problemas ambientais e outros eventos de interesse em saúde pública. Para Fabiano Marques, um dos principais fatores para o sucesso da iniciativa foi a mudança na estratégia de mobilização. “Quando a gente começou a ir até a comunidade, visitar lideranças e explicar o projeto, a adesão mudou completamente”, relatou, ao destacar o papel do engajamento direto nos territórios.
Outro ponto destacado foi que o engajamento comunitário não deve ser tratado apenas como uma etapa operacional, mas como um componente central da estratégia. Evidências apresentadas indicam que fatores como reconhecimento institucional, percepção de utilidade e fortalecimento do vínculo com a comunidade são determinantes para a sustentabilidade da iniciativa .
Para o Líder Comunitário Diogo Alves, o projeto ampliou sua compreensão sobre cuidado, vigilância e papel social nos territórios.

“O projeto nos trouxe uma perspectiva maior de abrangência e também de atuação”, afirmou o Líder de Pirenópolis, Goiás. “Mesmo já trabalhando com saúde pública, hoje consigo vislumbrar uma importância muito maior do meu papel a partir das capacitações.” ressalta o profissional.
Já para Waldecy Silva, Líder Comunitário de Niquelândia, a formação transformou sua percepção sobre o que pode ser considerado um sinal relevante para a vigilância. “Na oficina eu saí com a cabeça de que tudo eu podia reportar”, contou Waldecy. “Depois eu entendi que é aquilo de maior necessidade, aquilo que realmente vai ter proveito para a saúde da população.”
Além disso, para o Líder Comunitário, a iniciativa foi importante também para trazer uma nova visão sobre a comunidade onde atua:

“Até mesmo o aplicativo ampliou nosso olhar em relação ao cuidado da comunidade, hoje eu sinto meu papel com maior importância em relação ao cuidado e também em relação à atuação em saúde pública.” ressalta.
Ao final do encontro, constatou-se que a Vigilância de Eventos Baseada na Comunidade se consolida como uma abordagem complementar e estratégica para o fortalecimento dos sistemas de saúde, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade, territórios remotos ou situações de emergência. Ao incorporar lideranças comunitárias no processo de detecção e resposta, o modelo amplia a sensibilidade da vigilância, reduz o tempo de resposta e contribui para a construção de sistemas mais equitativos e conectados com a realidade dos territórios.
Mais do que apresentar resultados, o evento reafirmou a importância da cooperação internacional, da produção de evidências aplicadas e da participação social como pilares para o futuro da vigilância em saúde. A experiência compartilhada entre Brasil e Cabo Verde aponta para um caminho possível: uma vigilância mais próxima das pessoas, orientada pelo território e capaz de antecipar riscos em um mundo cada vez mais complexo e interconectado.
Confira o relatório final do projeto Guardiões da Saúde – Líderes Comunitários em proepi.org.br/guardioes-lideres

Sobre o projeto
Em andamento desde 2023, O Projeto Guardiões da Saúde – Líderes Comunitários teve como objetivo o desenvolvimento de um sistema de vigilância de eventos baseado na comunidade (VEBC) com o envolvimento específico e ativo de líderes comunitários. Frente ao desafio da sustentabilidade na implementação desse modelo a longo prazo, a proposta dessa pesquisa foi investigar a viabilidade desse método de vigilância e se o envolvimento dos líderes comunitários na concepção do sistema de reporte de dados, desde o início, poderia ajudar a incorporá-lo na vigilância em saúde local.
No Brasil, o projeto foi desenvolvido na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE-DF), especificamente na Região Leste de saúde do Distrito Federal e em nos municípios do estado de Goiás que compõem a RIDE-DF, sendo eles Pirenópolis, Cavalcante e Niquelândia. Já em Cabo Verde foi realizado nos conselhos de Praia e Santa Catarina de Santiago, na Ilha de Santiago.
O projeto foi realizado pela Associação Brasileira de Profissionais de Epidemiologia de Campo (ProEpi), em parceria com com a Sala de Situação de Saúde da Universidade de Brasília (UnB), do Instituto Nacional de Saúde Pública de Cabo Verde (INSP), com financiamento da London School of Hygiene and Tropical Medicine, da UK Health Security agency, do Department of Health and Social Care and da UK Public Health Rapid Support Team (UK-PHRST).
Matéria por: Matheus Ponte
Edição: Patrícia Paiva e Iggnatius Roy
Fotos: Thalyta Prado e Maria Luiza Feitoza















