Rede One Health Brasil

Pesquisadores, profissionais de saúde e gestores debatem aplicações do conceito “One Health” e a criação de uma rede de colaboração no Brasil

Durante a realização do 52º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, o evento satélite sob o tema “Desafios para saúde humana e animal em ecossistemas em transformação na perspectiva One Health (Saúde Única) ” atraiu a atenção de pesquisadores, trabalhadores dos serviços de saúde, pós-graduandos e alunos de diferentes cursos de graduação que lotaram o espaço destinado para debater a temática. A mesa-redonda “Complexidades nas interfaces saúde humana- vida silvestre-produção animal-ecossistemas em decorrência das doenças zoonóticas e os fatores que predispõem sua emergência e disseminação”, propiciou que pesquisadores de diferentes instituições atuando da pesquisa básica à vigilância em saúde apresentassem os resultados de pesquisas e abordagens epidemiológicas considerando as interfaces entre a saúde humana, animal e o ambiente, advindas do conceito One Health. Buscou-se nesta atividade “…aproximar pesquisadores para o debate técnico, favorecer o networking e discutir formas de organização e articulação neste campo de atuação”, destacou o pesquisador da UFMG e organizador da atividade, David Soeiro.

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Amplamente debatida no panorama internacional, a iniciativa “One Health” considera as interfaces da saúde humana, animal e o contexto ambiental. Apesar disto o Brasil ainda pouco dialoga com este movimento de forma mais orgânica. Evidenciando assim, a necessidade de uma articulação entre os pesquisadores, visando maior colaboração e atuação conjunta no desenvolvimento de atividades de pesquisa, ensino e extensão neste campo. Eventos ocasionados por doenças infecciosas emergentes são predominantemente de origem zoonótica (60,3%), sendo que a maioria destes (71,8%) têm origem nos animais silvestres (por exemplo, os vírus Ebola e Zika), e estão aumentando significativamente ao longo do tempo. Para a moderadora Glória Boff, do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul, esse debate por vezes realizado unilateralmente, “…requer maior colaboração interdisciplinar para abordagens mais efetivas na prevenção e controle das zoonoses”.

Para debater o componente da vigilância neste cenário, o atual coordenador de Promoção e Proteção à Saúde da SESA-CE, Márcio Garcia, aborda na palestra “Zoonoses virais emergentes e resposta aos surtos de doenças”, o conceito One Health e discute as implicações para a detecção precoce de surtos de doenças em populações humanas e animais como crucial para uma vigilância eficaz das doenças infecciosas emergentes. Além disso destaca a necessidade de se considerar outros determinantes no contexto, como a relação com turismo e o comércio, para uma abordagem integrada. A articulação da pesquisa básica com a aplicada considerando a ocorrência de zoonoses na relação com a vida silvestre e as alterações ambientais ocasionadas pela homem é contemplada na palestra “Parasitos na interface entre animais silvestres, domésticos e seres humanos: uma abordagem One Health”, ministrada pela Dra Julia Silveira do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

Discutiu-se ainda as interfaces do conceito One Health de forma aplicada em pesquisas realizadas em ambientes urbanos e rurais considerando diferentes eventos de saúde. A ecoepidemiologia da leptospirose foi abordada pela Dr Federico Costa do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, na palestra “Epidemiologia e Ecologia da Leptospirose Urbana” demonstrando a necessidade de estudos integrativos incluindo a ecologia de roedores reservatórios, ambiente e transmissão humana. Na palestra “Aspectos ecológicos da transmissão vetorial do Trypanosoma cruzi e identificação de áreas vulneráveis para ocorrência da doença de Chagas, ministrada pelo pesquisador Gilmar Ribeiro Jr do CPqGM/FiocruzBA, destacou-se a Infecção por T. cruzi e antropofilia das espécies coletadas colonizando o interior das residências e a identificação de municípios vulneráveis à transmissão vetorial do T. cruzi com mapeamento das localidades com risco de transmissão do T. cruzi. No contexto da transmissão da leishmaniose visceral, a palestra “Leishmaniose visceral – complexidades na relação homem-animal-vetor-ambiente em municípios de Minas Gerais”, ministrada pelo Dr Eduardo Sérgio, pesquisador da UFSJ – Divinópolis, destacou a necessidade de estudos de transmissão em áreas endêmicas urbanizadas visando entender o aumento nas notificações de casos autóctones de leishmaniose visceral e complexidade dos fatores ecoepidemiológicos envolvidos. É necessário “…transformar o saber em propostas estratégicas de intervenção na realidade”, destacou o pesquisador.

02Participantes da mesa-redonda (da esquerda para a direita): Julia Silveira (UFMG), Gloria Boff (CRMV-RS), David Soeiro (UFMG), Federico Costa (UFBA), Gilmar Ribeiro Jr (CPqGM-FiocruzBA), Eduardo Sergio (UFSJ-Divinópolis) e Marcio Garcia (SESA-CE).

Ao final da atividade, realizou-se um debate com os participantes sobre a criação da Rede de Ensino-Pesquisa-Serviço-Extensão em One Health no Brasil (Brazilian One Health Network) que visa proporcionar a comunicação e articulação entre pesquisadores, profissionais, usuários e gestores que desenvolvam estudos sobre o tema. Além disso, a Rede terá o importante papel de promover a divulgação e consequente utilização dos resultados para potencializar o conhecimento e utilização dos resultados na realidade dos serviços de saúde.

Agradecimentos:

Tal atividade teve o apoio da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, pelo espaço concedido no evento mediado pelo seu presidente Dr. Marcus Vinicius de Lacerda. Além disso, agradecemos ao Conselhos Regionais de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul, Alagoas e Minas Gerais pelo apoio disponibilizado para participação de convidados no evento. Registramos ainda a participação da Associação Brasileira dos Profissionais de Epidemiologia de Campo – ProEpi na concepção da atividade.

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